26/06/2017

[ RESENHA ] Uma Longa Jornada Para Casa

Título: Uma Longa Jornada Para Casa
Autor: Saroo Brierley
Editora: Record
Páginas: 229
Estrelas: 5/5
Livro: Cortesia da Editora
A história que deu origem ao filme Lion: uma jornada para casa, com Dev Patel. Aos 5 anos, Saroo pede ao irmão mais velho que o deixe acompanhá-lo à cidade onde ele passava os dias em busca de dinheiro e comida. Durante a viagem, o menino adormece. Ao despertar, confuso, se vê sozinho na estação de trem. Ele não sabe onde está o irmão, mas vê um trem parado. Imaginando que Guddu poderia estar lá dentro, Saroo embarca no vagão, e isso o faz atravessar a Índia. Sem saber ler nem escrever, e sem ideia do nome de sua cidade natal ou do próprio sobrenome, ele é obrigado a sobreviver sozinho nas ruas de Calcutá até ser levado para uma agência de adoção e ser escolhido por um casal australiano. Os anos se passam e, ainda que se sinta extremamente agradecido pela nova oportunidade que os Brierleys lhe proporcionaram, Saroo não esquece suas origens. Até que, com o advento do Google Earth, ele tem a oportunidade de procurar pela agulha no palheiro que costumava chamar de casa, e investiga nas imagens de satélite os marcos que poderia reconhecer do pouco que se lembra de sua cidade. Um dia, depois de muito tempo de procura, Saroo encontra o que buscava, mas o que acreditava ser o fim da jornada é apenas um novo começo.





Saroo tem três irmãos, Guddo, o mais velho, Kallu, o segundo, e Shekila, a bebezinha caçula. Sua mãe, Kamla, por ter sido abandonada pelo marido que decidira arranjar outra esposa, trabalhava como operária no canteiro de obras para conseguir sustentar sua família, às vezes até em outras cidades. Passando vários dias fora. Ao atingir os 10 anos, Guddu também arranjara um emprego como lavador de pratos em um restaurante. Então, a incumbência de cuidar de Shekila, ficara com Saroo que tinha apenas três anos na época.

 Morando em um bairro muito pobre, cujas casas eram apertadas e de péssimas condições, eles viviam cada dia como se fosse o último, sem pensar no futuro. A tarefa de cada um era sair para conseguir dinheiro ou comida, dividindo o que conseguiam no final do dia, mas também era muito comum a família passar fome. Mesmo sendo muito novo, Saroo também queria ajudar, e quando seus irmãos estavam em casa, eles saiam para pegar ovos ou tomates em fazendas vizinhas, às vezes até corriam perigos que quase lhes custaram a vida. Nessa hora eu me perguntava, mas ninguém cuidava dessas crianças? Por ser um bairro com muitas pessoas, era raro as crianças ficarem sozinhas sem nenhum responsável.

“No nosso segundo lar, vivíamos sozinhos, porém mais apertados. Nosso apartamento era um dos três que ficavam no andar térreo de um edifício de tijolos vermelhos. Tinha, portanto, o mesmo chão de lama e esterco de vaca. Assim como a casa anterior, tinha apenas um cômodo, com uma lareira em um canto e um tanque de barro no outro, onde bebíamos água e às vezes nos lavávamos. Na única prateleira existente, mantínhamos nossa roupa de cama. As paredes estavam sempre caindo aos pedaços — às vezes, eu e meus irmãos arrancávamos um tijolo e ficávamos espiando o lado de fora pelo buraco, antes de colocá-lo de volta no lugar. Em geral, o clima na nossa cidade era quente e seco, exceto durante o período das monções, quando chovia muito. Nas grandes colinas ao longe, nascia o rio que atravessava os velhos muros da cidade. No período das monções, o rio transbordava de seu leito e inundava os campos adjacentes — costumávamos esperar até que ele recuasse quando as chuvas paravam, pois assim as águas ficavam mais calmas e podíamos tentar pegar pequenos peixes para comer. Na cidade, o período de chuvas também significava que a passagem sob a ferrovia ficava alagada e, portanto, inutilizada. A passarela era um dos nossos lugares favoritos para brincar, apesar da poeira e do cascalho que caíam em cima da gente quando o trem passava.”
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Entretanto, por mais que tudo parecesse desagradável, eles eram razoavelmente felizes, embora desejassem, é claro, que as coisas fossem diferentes. Não tinham dinheiro para pagar os estudos, e apesar de tudo, a família era muito unida, Kamla é uma mãe amorosa e gentil, e quando ela não estava em casa, os irmãos cuidavam uns dos outros. Aos 14 e 12 anos, Guddu e Kallu começam a passar pouquíssimo tempo em casa, pois sobreviviam vasculhando em busca de coisas para comer e dormindo em estações de trem. E quando Saroo faz quatro anos, seus irmãos, às vezes, o levavam junto. Para ele, era como se seus irmãos vivessem uma aventura e tivessem liberdade para fazer o que quisessem, e apesar dele adorar cuidar de Shekila, isso era tudo o que ele queria.

Numa noite, Kamla preparava um jantar em família, e apesar de Kallu não ter ido, Saroo já tinha cinco anos e estava feliz de ver Guddu, pois fazia muito tempo que não o via. E num ato impulsivo, ele decide que não iria mais ser abandonado enquanto os irmãos saiam pelo mundo afora. E quando sua mãe sai para se preparar para voltar ao trabalho, ele decide ir com o irmão deixando Shekila sozinha. No início ele se culpa pelo que fizera, mas estava feliz por sair com Guddu outra vez.

“Logo, eu estava dando gargalhadas enquanto corríamos noite adentro, Guddu me carregando na bicicleta alugada através das ruas tranquilas em direção à estação de trem. O que poderia ser melhor? Eu já tinha viajado com meus irmãos antes, mas aquela noite era diferente. Saía com Guddu sem planejar quando voltava nem onde dormiria, exatamente como quando ele saía com Kallu. Não sabia por quanto tempo ele me deixaria acompanhá-lo, mas, naquele momento em que corríamos pelas ruas, não me importava com isso. Ainda me lembro nitidamente daquela pedalada. Eu estava sentado na barra logo abaixo do guidão com os pés apoiados em cada lado do eixo da roda dianteira. A bicicleta se sacudia, pois as ruas eram repletas de buracos, mas eu não me importava nem um pouco. Havia muitos vaga-lumes, e passamos por alguns garotos que os caçavam. Um deles gritou “Ei, Guddu!”, mas não paramos. Eu tinha orgulho de Guddu ser conhecido na cidade. Até já havia ouvido alguém mencioná-lo uma vez, quando eu estava num trem — para mim, ele era uma pessoa famosa.”

Porém, a viagem de trem estava se tornando cansativa e o sono estava começando a aparecer, como estava anoitecendo Guddu pede que Saroo fique sentado num banco da estação enquanto ele resolveria algo e depois voltaria para buscá-lo para que os dois encontrassem um lugar para dormir. Mas por estar muito cansado, Saroo acaba adormecendo.

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Ao acordar, ele percebe que além da estação estar totalmente deserta, seu irmão não havia voltado como prometera. Com mil pensamentos passando pela sua mente, ele não sabe o que aconteceu com Guddu, será que ele teria esquecido de buscá-lo, acontecera algo ou era uma brincadeira? Saroo não sabia! Um vagão estava se preparando para sair, achando que seu irmão poderia estar lá ou que o trem o levaria de volta para casa, ele não pensa duas vezes antes de entrar. E após essa decisão, muitos perigos, momentos ruins e assustadores irão surgir na jornada de Saroo, não apenas na busca pela sua família, mas pela sobrevivência. Sozinho em uma cidade totalmente perigosa, sem saber falar direito o nome da sua cidade, pessoas indiferentes e cruéis, estando muito longe de tudo que conhecia e amava.

“O perigo estava por todo lado e vinha de todo mundo — havia ladrões, pessoas que raptavam crianças e até assassinos. Isso despertou todo tipo de temor. Seria esse o mundo em que meus irmãos viviam quando saíam de casa e essa a razão por que não me deixavam sair da estação quando eu viajava com eles? O que havia acontecido com Guddu na estação de trem? Onde tinha se metido e por que não estava por perto quando acordei? Estaria ele num lugar como esse, procurando por mim? E o que será que minha família pensava que tinha acontecido comigo? Será que estavam me procurando ou já me consideravam morto, perdido para sempre? Acima de tudo, eu desejava encontrar minha mãe, Guddu, toda a família, para que me protegessem e cuidassem de mim, mas também sabia que, para que houvesse qualquer esperança de isso acontecer, eu tinha de ser forte, muito forte. Do contrário, eu iria desaparecer, ou até mesmo morrer, às margens daquele grande rio de águas turvas. Compreendi que tinha de me virar sozinho. E juntei todas as minhas forças.”

Como na sinopse mesmo diz, Saroo é adotado por uma família australiana, mas ele passará por muitos desafios antes de conhecer os Brierleys. Contudo, esse não será o fim da sua história, pois ele nunca se esquecera de sua família biológica, assim como o seu desejo de encontrá-los. Então é aqui que eu finalizo a minha resenha, para não soltar nenhum spoiler para vocês haha.

A história de Saroo é muito mais do que apenas emocionante, além de ser triste, linda e comovente, também é uma autobiografia. Por isso, enquanto eu lia o relato do próprio Saroo, era como se eu me transportasse para todos os momentos da vida dele e sentisse tudo em grande intensidade. Foi surpreendente, angustiante e muito assustador ler tudo o quê uma criança de apenas cinco anos teve que passar. A escrita é narrada em primeira pessoa e apesar de alguns momentos ela se tornar um pouco lenta, não havia me desanimado. A edição está linda e como bônus, o livro possui um mapa da Índia mostrando a trajetória que Saroo fez, nos conectando ainda mais com a história.  Depois de terminar a leitura, pesquisei sobre o autor e sua história e me emocionei mais ainda com as imagens que comprovavam alguns momentos citados no livro. E me deixou mais ansiosa ainda para assistir a adaptação e comparar, é claro! Para conferir se é tão boa quanto o livro.  E vocês, leitores, gostariam de ler e se emocionarem assim como eu? Deixem nos comentários as suas opiniões!      

11 comentários:

  1. Não sabia que tinha um livro do filme! Eu já queria assistir, mas sempre gosto de ler antes. Vou dar uma chance!

    Beijos,
    Próxima Primavera

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    1. Oi, Clarissa! Pois é haha. Leia sim, é muito bom para que você conheça com mais detalhes a história. Bjss!

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  2. Não sabia que esse filme tinha sido baseado em um livro! Bem legal!
    A historia parece ser bem tocante e emocionante mesmo.
    Sua resenha está incrível, mas no momento, não posso ler algo assim... To precisando de coisas bem alegres! :D
    Mas vou anotar a dica porque com certeza quero ler!
    um grande beijo!

    #Ana Souza
    https://literakaos.wordpress.com/

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    1. Oi, Ana! Pois é, com certeza! Obrigada, fico feliz que tenha gostado. Te entendo haha, esse livro é bom ler com calma mesmo, pois tem muito momentos pesados e tristes. Okay, espero que goste. Bjss!

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  3. Oie! Tudo bem?

    Estou de olho nesse livro desde que descobrir que foi nele que se basearam para fazer o filme, mas tenho a sensação de que chorarei um bom pouco durante a leitura, mas espero faze-la logo e gostar!

    Bjss

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  4. Eu vi o filme recentemente e me emocionei bastante. Sabia do livro, mas não quis ler, pois estou fugindo de livros que mexam com meu emocional e me façam chorar. O filme já foi experiência suficiente para mim. Fico feliz que tenha gostado do livro, eu gostei mt do filme, mas não sei se o leria ainda. Obg pela dica.

    Raíssa Nantes

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  5. Olá! Estou com o filme para assistir, já decidida a não ler o livro antes, mas depois da sua resenha, fiquei curiosa pela leitura. Amo histórias dramáticas, com bastante polêmica sobre o desaparecimento, sobre a difícil escolha de entrar no trem e todos os detalhes que me deixaram com água na boca para saber sobre essa trama.
    Beijos!
    Karla Samira
    http://pacoteliterario.blogspot.com.br/

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  6. oie, realmente, esse livro é muito bom, eu o li há uns meses e adorei a história, embora seja muito triste, por ser real. Mas achei super bem contado, detalhado, em fim, estou curiosa para assistir o filme.

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  7. Oi Jennifer.
    Eu não sabia que este livro é uma autobiografia. Isso faz com que a história se torne muito mais tocante do que já é. É uma história bem triste e que com certeza vai me fazer chorar, porque eu sou uma leitora bem empática.
    Quero ler o livro para depois poder conferir o filme.
    Abraços.

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  8. HEllo!!
    Aqui no blog tb lemos o livro e achamos muito emocionante essa história de busca e perda da familia.
    Foi uma história diferente e por ser real, nos deixa ainda mais maravilhado pelas coisas que Saroo passou.
    Ainda nao vi o filme, mas me falaram que foi mto fiel.
    Beijos.

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  9. Oi,
    Eu já fiquei emocionada lendo a sua resenha, imagina lendo o livro.
    Eu tenho um filho de cinco anos, fiquei imaginando como seria uma pessoa tão pequena passar por tudo isso... complicado!
    Parece mesmo ser uma história real.
    Beijos e obrigada pela dica

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