20/07/2016

[ RESENHAS ] Delirium

Título: Delirium
Autor: Carlos Patricio
Páginas: 228
Editora: Página 42
Estrelas: 5/5

Desordens. Distúrbios. INSÂNIAS!Este é o tema de Delirium.Nesta coletânea de contos o autor preza, sobretudo, pela diversidade e a originalidade. Pois em que outro livro você encontraria realidade virtual, experiência com alucinógenos, assassinos sádicos, debates sobre crenças e religião, um desabafo a la Kafka, e, até mesmo, os infortúnios de uma fofoca? Uma culinária diversificada e bem temperada para todos os paladares.



Olá leitores! Tudo bem com vocês?
Que tal um livro que aborda temas dos mais inusitados os mais escandalosos? 

Delirium é uma coletânea que reúne sete contos e um poema, nos levando a histórias totalmente diversificadas e únicas. Pretendo comentar um pouco de cada, de modo objetivo e claro.


O primeiro conto se chama “Doutor Sádico”, que me fez lembrar o motivo para minha falta de entusiasmo por livros de terror. É um conto bastante ousado, pois explora as condições de uma mente doentia e perversa.  A história se inicia com Klose tentando disfarçar os últimos acontecimentos que envolvem não somente sequestros de crianças, mas como de adultos também, para sua filhinha Elizabeth não temer o início das aulas. Após ele deixar Elizabeth na escola, vai à um bar, onde pode afundar suas preocupações em relação ao emprego perdido. Lá ele conhece Hans Mozart, um homem cuja a aparência e o comportamento sugerem civilidade, mas foi assim que entendi o verdadeiro significado da frase “as aparências enganam”. Hans Mozart é na verdade conhecido como Doutor Sádico, um monstro que não conhece limites na hora de brincar com suas vitimas.
“Pedofilia, assassinato, torturas sangrentas, estupros, canibalismo, necrofilia, zoofilia, coprofagia, e entre outras práticas absolutamente asquerosas...”.

Logo Klose se vê acordando de um sono profundo (ele foi drogado), em um lugar que sou incapaz de descrever.
“ Para descrever o interior daquela casa, palavras não passam de vento. [...] Corpos mutilados, instrumentos de tortura e toneladas de podridão compunham um indesejado panorama aos olhos do sensível cristão.”
Doutor Sádico usa fraseologia de vários filósofos para explicar o fato de ter aceitado a própria condição “humana”, como o Conde de Lautréamont, Marquês de Sade, Stephen King, Hitler, Nietzsche, e etc. A história se desenrola de modo imprevisível, e com um fim inédito. Tudo que eu mais queria durante a leitura era terminá-la, pois o que realmente me afligia era saber que o comparsa do Sádico estava indo buscar a filhinha do Klose na escola.
O segundo conto é bem mais tranquilo, comparado ao primeiro, apesar de também ter um desfecho impressionante. “Truco” nos apresenta a uma noite de jogos entre amigos próximos, mas que termina com tragédia nos levando a literatura fantástica e a um mistério envolvente.
Em “Agoniado” conhecemos Julio, um sujeito de vinte e oito anos, solteiro e que vive no centro da agitada São Paulo. Um cara aparentemente comum, mas que sofre de uma terrível ansiedade, beirando a loucura. O quarto conto se chama “Telefone Sem Fio” que conseguiu me deixar apreensiva e apavorada com o poder de uma fofoca avassaladora.




“A Questão de Todas as Questões” está entre os meus favoritos que abordou um dos assuntos mais comentados e polêmicos que existe até hoje, religião vs. ciência. O autor nos leva a conhecer o brilhante cirurgião oncológico Daniel, e sua prima (considerada uma irmã) Karen, que acaba de descobrir que possui um tumor no estômago.
Com o futuro incerto da prima, Daniel acaba refletindo mais profundamente sobre Deus, o universo, vida e morte. O médico passou a vida inteira, até este momento, em busca de respostas e uma religião que pudesse acreditar e seguir seus ensinamentos, submetendo-se até mesmo ao budismo por considerar mais uma filosofia de vida do que uma religião (só para abandonar essa “filosofia” logo após descobrir as origens da imagem do famoso Buda).
“Teísmo ou ateísmo? Crença ou descrença? Plano ou acaso? Quanto mais ele pensava, mais confuso ficava.”
Daniel chegou a debater sobre Deus com uma cristã convicta, Camilla. O debate entre eles foi um dos melhores diálogos que já tive a chance de ler. Eles conversam, no imite do possível, sobre as possibilidades de um mundo “livre” da religião, sobre as guerras santas serem a causa de milhares de mortes, mas também sobre a ética e a moral estabelecida há muito tempo pelos antigos.
“Estas tuas sugestões não me atingem, doutor! –Camilla manteve a compostura. –Dizer coisas como “é incrível alguém acreditar numa cobra falante!” a mim não representam nada, pois, se assim está escrito na Bíblia, assim acredito que foi. [...]”
Não posso deixar de concordar com Estevan Lutz, autor de “O voo de Icarus”, que escreveu o prefácio do livro Delirium, quando ele enfatiza que o conto chegou a “um desfecho que oferece ao leitor a liberdade para tirar suas próprias conclusões”.
“O Outro Mundo de Henrique” somos impelidos, pela imaginação do personagem Henrique, a um mundo totalmente fantasioso, para onde ele foge de sua entediante realidade. Nesta terra dos sonhos, Henrique pode ser qualquer coisa ou está em qualquer lugar que desejar, escolheu para aquele dia ser um guerreiro.
O poema “Pouco Antes da Virada” me surpreendeu muito por ter uma “pegada” melancolia e sonora super envolvente. Através das palavras ritmadas podemos compreender a proposta do narrador, que se vê diante da virada do ano, sem ter nem mesmo a certeza se verá o ano novo chegar.


“É ruindade desejar
Que sozinho eu não vá?
Sinceramente, não sei...”
“Lindos Sonhos Dourados” reforçou completamente a ideia de que drogas são o verdadeiro desastre na vida de uma pessoa. Conhecemos Guliver neste conto, um mauricinho que sempre viveu submisso ao pai, tendo que aturar suas injustiças, principalmente o que diz respeito aos negócios da família, encontrando uma espécie de conforto na música e ao sair de casa, sem rumo.
“-Escute meu conselho, truta, nunca entre nessa onda, ouviu? Nunca! Não seja burro de experimentar, como eu fui. [...]”

Delerium é um livro totalmente diferente de qualquer outro que eu já tenha lido, alguns dos seus contos são obscuros e insanos, nos convidando a mergulhar em mundos delirantes. Carlos Patricio ofereceu em seu livro uma proposta que mescla o real com o imaginário, fazendo seus leitores se desprenderem da realidade. É a primeira obra publicada do autor, e fico bastante orgulhosa de saber que o Carlos Patricio é um escritor nacional (um dos meus poucos favoritos).
A escrita usada no livro é fantástica e muito convidativa. Gostei também das frases de grandes pensadores que ele incluiu nos contos. Em relação a capa, vou ser sincera com vocês, não conseguiu me cativar nem um pouco, mas vou contar um segredo: as ilustrações internas são impressionantes! Muito lindas, juro. Foram feitas pelo Cassio Gois, e fiquei super tentada a colori-las. Elas estão entre as passagens de um conto para outro, essas artes estão em uma completa harmonia com o tema de cada história.
Recomento muito esse livro para os leitores que adoram contos, porém sugiro que estejam preparados para esses mundos diversificados e dilacerantes que irão encontrar nestas páginas.

16 comentários:

  1. Adoro livros de contos e poemas, e esse parece ter uma diagramação bem bonita.
    Confesso que terror também não me atrai muito, mas quando a leitura me faz ter sensações diferentes, sempre tomo como algo positivo.
    E por você ter falado sobre os desfechos, me deixou com curiosidade para ler e saber o que cada um absorveu daquilo. Adoro quando rola esses bate-papos.
    ótima resenha. Beijo!

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  2. Gente, que agonia o conto do sádico... Fiquei nervosa só de ler na resenha. Ui...
    Poxa, muito interessante esse livro, cada conto parece querer tocar o leitor profundamente com alguma temática complexa. Aquele das drogas, mesmo você falando pouquinho, parece perfeito para funcionar como um conto instrutivo.

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    1. Hey Mari! Verdade, esse conto (das drogas) funciona sim como um conto instrutivo, que carrega uma moral bem bacana. E o do sádico realmente é de agoniar o leitor.

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  3. Olá! Ultimamente tenho me rendido aos contos. Esse livro tem contos bem interessantes, mas o primeiro, não sei se leria... é uma leitura bem forte! Mas, os resto dos poemas leria sim. Beijos!

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    1. Olá Suzana!
      Fico feliz que você goste de contos, garanto que os desse livro são para todos os gostos! Beijos!

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  4. Olá Marcela,
    Esse livro é bem diferente, hein? Confesso que, num primeiro momento, não fiquei interessada na leitura do livro, mas depois fui me convencendo a ler. Gostei muito de saber que a escrita é fantástica e achei a premissa interessante.
    Dica anotada.
    Beijos

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    1. Hey Bruna!
      Fico muito feliz que tenha anotado minha recomendação! Espero que goste do livro tanto quanto eu!
      Beijos!!

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  5. Oi!
    Nossa que livro diferentão, kkkkk. Achei a capa incrível, e quando li a sinopse e sua resenha vi que o tema é algo tão inusitado que fica difícil não querer ler.
    Bjs!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Oi Marcela, que capa horripilante!!! Eu já nem pegaria neste livro pela capa que é assustadora, para quem gosta beleza. Detesto terror com toda força d’alma. Tem alguns contos que pelo que você compartilhou não parecem tão aterrorizantes, mas prefiro não arriscar. Hahahaha Sou medrosa assumidíssima, mas com certeza, o autor terá muitos leitores.

    Bjo
    Tânia Bueno

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    1. Também não curto muito terror, Tania, mas consegui reunir coragem para ler o primeiro conto kkk
      Mas garanto que os outros são mais tranquilos!
      Beijos!!

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  8. Oi marcela, sua linda, tudo bem?
    OMG!!! Estou com medo dessa capa, risos... E você me deixou muito angustiada com o Doutor Sádico, adoro crianças, não quero nem pensar no que ele vai fazer com a filhinha do Klose. E o que ele fez com o próprio Klose? Isso acaba com meu coração!!! De todos, o que chamou minha atenção, realmente foi A Questão de Todas as Questões”. Adoro debater sobre assuntos e da forma como contou, esses diálogos entre eles devem ser incríveis e nos fazer refletir. Não tenho costume de ler livros de contos, mas mesmo com medo, esse parece ter um diferencial em relação aos outros. Dica mais do que anotada. Sua resenha ficou ótima!!!
    beijinhos.
    cila.

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    1. Hey Cila, tudo ótimo!!
      Muito obrigada, fico feliz que tenha gostado da resenha! E sim, os diálogos foram realmente incríveis, principalmente nos debates! E sobre o Sádico... Quero nem lembrar o quanto fiquei agoniada com a história (mas amei o final, o autor me surpreendeu).
      Dica anotada? Obrigada! Você fez uma resenhista muito feliz! Haha...
      Beijos!!!

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  9. Olá...

    Adoro contos e gostei muito da seleção que você apresentou aqui. Não conhecia essa obra e já fiquei curiosa.
    O tema é bem interessante. Já anotei a dica!

    Abraços

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